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A escola tirou o celular. E na hora da lição?

Em um ano de lei, a restrição total ao celular foi de 20% para 48% das escolas. Em casa, na hora da lição, a regra ainda é sua.

Equipe Sidekick6 min de leitura
A mentora Helena na capa do artigo sobre celular na hora da lição de casa

São cinco da tarde. Seu filho chega da escola, larga a mochila e pega o celular que passou o dia inteiro guardado num armário. Às seis ele abre o caderno de matemática. O celular fica do lado, virado para cima.

Às seis e meia a lição tem três exercícios feitos. O celular acendeu catorze vezes.

A escola resolveu a parte dela do problema no ano passado. A sua parte começa quando ele atravessa o portão de volta.

O que um ano de lei mudou na escola

Em janeiro de 2025 foi sancionada a Lei 15.100, que restringe o uso de celular nas escolas brasileiras para fins que não sejam pedagógicos. Em junho de 2026, o MEC divulgou a primeira avaliação nacional, feita com o Inep, o Instituto Alana e a Unesco.

Os números mostram que a regra pegou. 92% dos gestores dizem que a lei já está implementada na escola deles, e a proibição do aparelho em todos os espaços passou de 20% para 48% das escolas. A liberação sem restrição, que valia em 13% delas antes da lei, desapareceu.

E quem dirige as escolas gostou do que viu. No mesmo relatório, 97% dos gestores concordam que os alunos passaram a participar mais das atividades, 95% veem ganho de concentração e de convivência, 88% notam menos conflito e cyberbullying e 86% associam a restrição a menos ansiedade.

Vale uma ressalva antes de comemorar. Isso é percepção de diretor e coordenador, não medida de nota nem de atenção. A pesquisa ouviu 2.469 gestores em março e abril de 2026, e o próprio MEC escreve que falta ouvir professores, estudantes e famílias.

O PISA 2025 ajuda a dar tamanho ao assunto. Na nota do Brasil, divulgada em setembro, 81% dos estudantes de 15 anos estavam em escolas que proíbem o celular, contra 37% em 2022. E, no Brasil, ter colegas distraídos com aparelho na maioria das aulas de ciências se associa a 19 pontos a menos na prova. Na média dos países da OCDE, a diferença é de 11.

A lição de casa ficou de fora

A lei vale até o portão. A lição de casa acontece do lado de cá, e nela ninguém fez regra nenhuma.

O dado mais direto que existe sobre isso não é brasileiro nem é novo, e é bom dizer as duas coisas. Um estudo publicado em 2021 na Education Sciences ouviu 135 alunos de quatro escolas públicas de ensino médio nos Estados Unidos. Eles relataram ficar distraídos durante cerca de 38% do tempo de lição, entre celular e pensamento que escapa para outro lugar. Os autores estimam que isso dá umas 204 horas por ano sentado na frente da lição sem estar fazendo a lição.

O mesmo estudo traz a parte mais útil para você. 64% dos alunos acharam que deveriam se concentrar mais do que se concentravam. Ou seja, a maioria já sabe. O que falta não é convencimento.

Por que o celular atrapalha mesmo quando ele não mexe

Aqui a evidência é menos arrumada do que a internet costuma contar.

Circula muito a ideia de que basta o celular estar em cima da mesa para “roubar” parte do cérebro. A pesquisa que popularizou isso é de 2017, e as revisões que vieram depois reduziram bastante a promessa. Uma meta-análise publicada na Media Psychology em 2024 reuniu 56 estudos com 7.093 participantes. Só a memória de trabalho, a que segura a informação enquanto você faz a conta, piorou com a simples presença do aparelho. Atenção e raciocínio não mostraram efeito. Uma outra meta-análise, de 2023, com 22 estudos, achou um efeito pequeno e concentrado no mesmo lugar, a memória.

Traduzindo: o celular parado na mesa não é o vilão que dizem, mas também não é neutro. E memória de trabalho é justamente o que a lição de matemática mais pede.

O problema maior é outro, e é mais simples. Cada notificação é um convite para trocar de tarefa. Trocar custa pouco. Voltar custa caro, porque ele precisa reconstruir onde estava no exercício. Catorze convites numa meia hora não deixam a cabeça ficar tempo suficiente em lugar nenhum.

E tem um detalhe que pesa em adolescente: a notificação quase sempre é gente. O grupo da turma, o amigo, o jogo com o pessoal. Ignorar parece falta de educação com quem ele gosta. Por isso “é só não olhar” funciona tão mal.

O que perguntar antes de fazer regra

Nada aqui depende de aplicativo. São perguntas para você responder antes de sentar para conversar com ele.

O que a escola fez que dá para copiar? A regra da escola funciona porque é clara, vale para todo mundo e diz onde o aparelho fica. Não é uma negociação por dia. Em casa, a pergunta equivalente é: onde o celular mora durante a lição? Decidido isso uma vez, a briga diária some.

Você começou pelo que ele aceita? No estudo americano, 87% dos alunos toparam deixar o celular no silencioso e 80% toparam deixá-lo perto, mas fora da vista. Desligar ou pôr em outro cômodo caiu para perto da metade. Começar pelo passo que ele aceita dá mais resultado que começar pelo passo que você acha ideal e ele sabota.

A lição precisa do celular? Às vezes precisa: a foto do quadro, a pesquisa, o aviso da professora no grupo. Se precisa, combine o momento. Primeiro ele confere o que tem para fazer, depois o aparelho sai de perto. Celular como ferramenta por cinco minutos é diferente de celular como companhia por uma hora.

Qual é o tamanho do bloco? Pedir duas horas sem celular para quem nunca fez vinte minutos é pedir para falhar. Um bloco curto e combinado, com o celular liberado no intervalo, ensina mais do que uma proibição longa que ninguém cumpre.

Onde está o seu celular nessa hora? Se você está no sofá rolando a tela enquanto cobra concentração dele, o recado que chega é outro. Já falamos aqui sobre o celular dos pais e o filho, e o assunto volta nesta hora do dia.

Quem decidiu a regra? Regra que ele ajudou a desenhar tem mais chance de sobreviver à terceira semana. Pergunte a ele o que atrapalha mais. A resposta costuma ser mais honesta do que você espera.

Onde o Sidekick entra

No Sidekick, você pode criar a lição de casa como uma missão da categoria estudos, repetida todo dia, com o tempo previsto e a parte do dia em que ela costuma acontecer. Com isso marcado, seu filho recebe um lembrete perto do fim desse horário se ainda não tiver concluído. Quando termina, ele envia a prova em texto ou foto, você aprova, e a missão rende moedas.

E, se na sua casa tempo extra de tela é uma recompensa, ele pode entrar no catálogo de recompensas, comprado com essas moedas. O celular deixa de ser o que disputa a lição e passa a vir depois dela.

Para esta semana

Escolha com seu filho onde o celular fica durante a lição. Um lugar só, fora da vista, no silencioso.

Não mude mais nada por sete dias. No domingo, pergunte a ele se a lição rendeu diferente. Deixe que ele responda primeiro.

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