Metade dos adolescentes já viu propaganda de aposta
53% dos brasileiros de 11 a 17 anos viram divulgação de apostas na internet no último ano, segundo o CETIC.br. O que fazer antes que vire assunto.

Seu filho está vendo um vídeo de um jogador que ele acompanha. No meio do vídeo o cara mostra a tela do celular, um valor pulando de R$ 50 para R$ 1.800, e diz o nome de um site com um código de desconto.
Não é propaganda de intervalo. É o próprio conteúdo. E seu filho tem 14 anos.
Você provavelmente não viu esse vídeo. Ele viu, e não foi a primeira vez.
O número brasileiro
A TIC Kids Online Brasil 2025, do CETIC.br, perguntou a usuários de internet de 11 a 17 anos que formas de divulgação de produto ou marca eles viram nos últimos doze meses. A pesquisa ouviu 2.370 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, com coleta presencial entre março e setembro de 2025.
O resultado para apostas: 53% viram divulgação de apostas.
Para dar escala, as outras respostas do mesmo indicador:
- 66% viram gente abrindo embalagem de produto.
- 65% viram gente ensinando a usar um produto.
- 61% viram gente mostrando produto.
- 39% viram sorteio ou concurso.
Ou seja: propaganda de aposta chega a mais adolescente brasileiro do que sorteio, e fica na mesma faixa dos formatos publicitários mais comuns da internet. Não é um canto obscuro. É mainstream.
Vale marcar o que o dado diz e o que ele não diz. Ele mede exposição, não comportamento. Ver propaganda de aposta não é apostar. O que o número mostra é que o assunto já entrou na casa, com ou sem a sua autorização.
Por que isso pega justamente nessa idade
Três motivos se somam, e nenhum deles é burrice do adolescente.
O formato não parece propaganda. Quem fala é alguém que ele segue há dois anos, no meio de um conteúdo que ele escolheu ver. O cérebro não liga o alerta que ligaria num comercial de TV.
A aposta e o jogo já se parecem. Um adolescente que passou anos comprando caixa de recompensa, pagando sem saber o que vinha dentro, já foi treinado na mecânica. Um estudo com 1.155 adolescentes de 16 a 18 anos encontrou associação entre gasto em caixa de recompensa e jogo problemático, de magnitude moderada a grande, mais forte do que a observada em adultos. O caminho de um para o outro é curto porque a sensação é a mesma.
O prejuízo aparece tarde. Perder R$ 20 numa aposta não dói. O que dói é a sequência, e a sequência leva meses.
A lei se moveu. O ECA Digital, em vigor desde 17 de março de 2026, obriga plataformas a remover imediatamente conteúdo que envolva venda de jogos de azar para crianças e adolescentes, e restringe o direcionamento publicitário a menores. Como a análise do Data Privacy Brasil aponta, boa parte da fiscalização ainda depende de norma da ANPD. Enquanto isso, 53% é o número de hoje.
O antídoto doméstico não é proibir o assunto, é ele já ter experiência de decidir com dinheiro próprio, que é o que uma mesada bem montada treina.
O que fazer na prática
A tentação é proibir e mudar de assunto. O problema é que proibir aquilo que ele já viu cinquenta vezes não passa credibilidade, passa desatualização.
Pergunte antes de opinar. “Você já viu aquela propaganda de aposta nos vídeos?” quase sempre rende um sim e uma explicação. Deixe ele contar como funciona. Você vai descobrir que ele sabe muito mais do que imaginava, inclusive que é golpe. Adolescente costuma ser bem cético, desde que não esteja se defendendo de uma bronca.
Mostre a conta, não o perigo. A casa de aposta não esconde a margem dela, ela só a escreve pequeno. Pergunte: se o site paga R$ 1.800 para alguém, de onde saiu esse dinheiro? A resposta é dos outros apostadores, e seu filho chega nela sozinho.
Nomeie o formato. Diga em voz alta que aquele vídeo é propaganda paga, mesmo quando não tem aviso. Quando o adolescente aprende a identificar “isso aqui é anúncio”, ele aplica o filtro para o resto da vida, inclusive para coisas que você nem vai estar por perto para comentar.
Conte que você também cai. Fale de uma compra por impulso sua, de uma promoção que não era promoção. Publicidade não engana quem é bobo, engana todo mundo. Essa frase vale mais que uma lista de proibições.
Cuidado com a aposta que não se chama aposta. Boa parte do que chega ao adolescente hoje não tem a palavra aposta em lugar nenhum. É a caixa com item surpresa, o site de troca de item raro, o grupo que sorteia skin, o jogo de multiplicador que “não é jogo de azar porque dá para sair antes”. A pergunta que separa tudo isso é simples e serve para qualquer formato: existe a chance de eu perder o que coloquei? Se existe, é aposta, seja qual for o nome na tela.
Fique atento a dinheiro que some sem explicação. Não para vigiar, mas porque é o sinal mais objetivo que existe. Pix pequenos e repetidos para o mesmo destinatário, saldo que acaba no dia 10, pedido de empréstimo a irmão.
Onde o Sidekick entra
O Sidekick não bloqueia site de aposta nem filtra publicidade. Nenhuma das duas coisas está no app.
O que ele faz é dar ao adolescente um dinheiro que ele entende de onde veio. Missão cumprida paga moeda, recompensa custa moeda, e no fim do ciclo o que sobrou vira dinheiro de verdade, com valor da moeda e teto do mês definidos pelo pai. Um filho que passou três meses vendo o próprio esforço virar saldo tem uma referência concreta para comparar com a promessa de multiplicar R$ 50 em dez minutos.
Não é vacina. É repertório.
Para começar
Nesta semana, pergunte a ele qual foi a propaganda de aposta mais descarada que ele já viu. É uma pergunta divertida, ele vai querer responder, e ela abre a conversa inteira sem nenhuma bronca.


